quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Paredes rachadas

Eu não consegui porque eu tenho boa memória, porque - bem que eu queria, mas - eu não consigo apagar os nomes, os rostos, os cheiros, os gritos e as dores que assolaram o meu corpo durante os nossos piores dias. Eu não consegui porque você nunca falou muito, na verdade, você sempre falou muito pouco, escondeu umas coisas, mentiu sobre outras, calou o que queria gritar. Eu não consegui porque você sempre negou o que o seu corpo entregava, porque você não declara, não expõe, não joga na roda pra ver qual é. Eu não consegui porque de todas as pessoas que eu tive, você foi a mais calada, a que brigou menos comigo, a que me acusou menos, me humilhou menos, me desrespeitou menos, mas a que disse, com uma puta verdade, a frase mais dolorosa que eu já ouvi em toda a minha vida: faz tempo que eu acho que o nosso tempo passou faz tempo. Foi por isso que eu não consegui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

quatro paredes para o Alonso


Alonso, querido, esse é o blog de um trabalho que fiz com o Caio em 2009. O blog continuou e parece que tem uma infinidade de coisas nele. Talvez muitas delas possam te servir para alguma coisa (talvez não). Mas acho que, pelo menos, significa muito dentro disso tudo:

http://violentaentrequatroparedes.blogspot.com.br/


"DOMINGO, 25 DE OUTUBRO DE 2009

eu calei porque...
porque acabou, mas na verdade eu não reconheço o fim, porque era bom estar com você todos os dias, bom respirar junto, suar junto, pensar junto, repensar. Porque repensei e achei melhor calar. Porque do nada as coisas acontecem e a gente nem percebe. Porque talvez tenha sido a semana mais rápida da minha vida e quando fui tomar o café vi que ele já tinha ficado para trás naquela tarde chuvosa. A música já estava decorada, o sorriso já estava na cabeça e as alegrias e os nervosismos já eram identificados com facilidade. Usei a calça dobrada de um jeito diferente naquele dia e só você reparou e quando vi estávamos brincando feito crianças de 2 anos de idade e só a gente achava isso bonito. Porque ninguém mais sabia falar desse jeito, só a gente. Porque se não estamos juntos acho melhor esquecer. Porque na verdade tudo que fizemos foi gritar, melhor calar por um tempo então e ficar assim com vocês, no silêncio, é difícil e fácil, bonito e feio, alegre e triste e talvez necessário, não se sabe de fato nada."

Para Alonso:

três poemas de "cigarros na cama",
de ricardo domeneck




3.

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.



12.

Fumando na chuva,
curvado e ainda mais corcunda,
preferindo proteger o cigarro,
não a nuca.



17.

Passo a fumar à francesa
segundo a sua descrição
e nomenclatura: com o cigarro
na mão direita
levo-o ao canto esquerdo da boca,
deixo os dedos levemente abertos
com o cigarro nos lábios
entre o indicador e o dedo médio,
fazendo côncavas as bochechas
com a inspiração do fumo,
mas talvez eu esteja apenas
imitando-o agora à distância

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carly's Cafe

"O autismo me prendeu dentro de um corpo que eu não posso controlar" - Carly Fleischmann

 http://lounge.obviousmag.org/ponto_cego/2012/12/como-seria-estar-por-tras-dos-olhos-de-um-autista.html

http://carlyscafe.com/

Carta, bilhetinho ou email:

Curitiba é uma cidade grande. Bom, pelo menos é o que dizem sobre ela. Ganhou esse status assim como uma série de outras cidades que não vejo necessidade de citar. Assim como o Rio de Janeiro, Curitiba é uma cidade grande. Em oposição ao Rio de Janeiro, ela ainda sabe se fazer pequena. Pequena, tranquila, provinciana e, acreditem, quase bucólica. No bairro do Ahú as casas são de todos os tipos, as ruas arborizadas, com jardins floridos que-só-vendo. Todos os dias tem cara de domingo. Poucas pessoas na rua, ou melhor, ninguém na rua. Os estabelecimentos fecham cedo e conseguir uma cerveja pode ser uma missão de, maios ou menos, umas duas horas de duração. Todas as casas são vigiadas pelo moço que dirige uma moto e cuida da rua de noite. A nossa segurança aqui é garantida por 11 janelas fechadas com cadeado, três portas com três trancas cada e o moço que dirige a moto e cuida da rua de noite. No quintal, a cachorra Biscoito é o alarme para qualquer movimento - suspeito ou não. Biscoitinha ou Biscoitão late se um carro estaciona perto da casa, late se alguém passa na rua, late se o cachorro de outra casa late e late toda vez que o moço que dirige a moto e cuida da rua de noite passa em frente a entrada da casa. Ah, ela também late de saudade do Café, o gato. Os donos da casa disseram que "o Café pode ficar aqui dentro porque os gatos são mais higiênicos". Aham. Sábado em Curitiba também é domingo. O Torto fechou meia noite porque a cerveja acabou e não deu conta do número de pessoas. O Lado B já estava fechado, assim como o Roca e todos os outros bares. Só nos restou o Olds que era o único bar aberto e por isso abarrotado de gente. Fila para comprar, fila para pegar, fila para mijar, fila para sentar e pedir licença. Em Curitiba as pessoas ainda bebem na rua, sentadas no meio-fio ou em rodinhas de gueto. Cantagalo? São Lourenço? São Pedro ou São João? A fila do Wonka dobrava a rua - também era a única balada existente na cidade em uma noite de sábado(DOMINGO). O cigarro ainda não aumentou aqui e você pode pagar no débito, sempre que quiser. O telefone das cias. de táxi é 0800 e a maior parte dos carros também aceita cartão. Os táxis são laranja tipo queijo cheddar de bisnaga. Sabe? O Lu e a Bia foram para a praia. A Chics está dormindo e eu estou no meu quarto provisório. Se o Café entra é espirro pra todo lado. Lá embaixo fica o quarto que fizemos de escritório para o trabalho. Aliás, hoje o dia foi muito produtivo. A Mariama é a nossa produtora e ontem foi aniversário dela. Na festa da Mariama teve piscina, pinha colada, cerveja, ice e cachaça mineira da boa. A Mariama é mineira. Ela veio para Curitiba fazer faculdade...como todas as pessoas que eu conheço de Curitiba que não são curitibocas. O Lu e o Bruno tocaram muita viola e guitarra pra gente. Pessoas que se gostam, que se amam, que se comem e se bebem quando reunidas são todas iguais. Parecidas, bem parecidas. É que sentado no sofá da Mariama, com o som rolando, a cerveja esquentando, o cigarro queimando de repente era gente. Sabe? Maria Bethânia, please send me a letter...Caetano também é curitibano. Música por todos os lados e também eles, os músicos. Canções belas,  Café Chinelos, Gato Nanquin, Rosa Morte. Eles cantavam e riam e, aos poucos, quem morria pelos cantinhos era eu. Saudade boba, saudade gostosa. Saudade que afirma que o que a gente tem é bom- demais-da-conta e por isso a gente não troca. A gente vai ali, mas volta. Curitiba me prova diariamente o que se diz improvável nas curvas cariocas. O custo de vida é honesto, a comida farta e se vive com o que se tem. Arroz, feijão, picanha acebolada, batata-frita e um prato de saladinha quanto dá? "O prato executivo, é? Tá Oito reais, piá". Aí também tem dessas coisas, né? De se lembrar do sujinho e dos seus 12 reais cobrados. Tem quatro pessoas na mesa, moço. "Então vocês vão dividir uma coca dois litros?". Isso. Aqui o ônibus não atrasa e você pode ver o horário que ele vai passar na internet. Nada de mofar no ponto, nada de surpresas. E se o ônibus chega mais cedo do que o horário previsto?, eu perguntei. Ele aguarda no ponto, aguarda a pessoa que se programou para o horário previsto. E se ele atrasa? O motorista avisa a central e você pode ver no seu celular. OMG. Em frente ao ponto de ônibus, logo depois do Barolho - o do almoço bacana - tem um buffet de sorvete. BEL. Pertinho da gente o museu daquele moço que morreu faz pouco tempo e a morte dele ainda é comentada. Eu não vou dizer o seu nome para que ele possa ficar sem ler essa postagem. O centro cívico é lindo e o Palácio do Governo fica atrás do museu. O centro é habitado e não esquecido. A grande Curitiba é pequena. A livraria Cultura hoje estava fechada para melhor atender aos clientes amanhã. Boa parte do comércio só voltou as atividades no dia de hoje. Essa gente daqui, bem diferente da nossa gente daí (e isso não é um elogio), leva a sério essa história de recesso, repouso. Até carro parece que por aqui descansa. O Gustavo chega na quarta e eu ainda não o conheço mas somos vizinhos de quarto. A casa não é casa é chalé. Toda de madeira para afastar o frio - que não está fazendo. Dizem as más línguas que eu trouxe o calor comigo. Ah, no avião eu conheci a Rafaela, uma querida-super-jovem tatuada que foi passar o ano novo no Rio. Nessa quinta a gente vai pruma balada juntos. Então também tem dessas coisas, né?

com carinho,

Caio.

Do amor e das diversas fases dessa doença

1 - O que é que você tem? Não tenho nada.Tem sim. Não tenho. Por que é que você tá assim? Assim como? Cê sabe. Não, não sei. Sabe sim. Você acordou assim. Assim como? Deixa pra lá. O que é que a gente vai fazer depois do almoço? Depois? É. Não sei. Você vai ficar aqui? Como assim? Você vai ficar aqui depois do almoço? Vou. Eu sempre fico aqui depois do almoço. Por que é que você tá me perguntando isso? Não sei. Não sabe? É. Pensei que você pudesse querer ir pra sua casa. Faz tempo que você não vai. Eu vou. Hã? Eu vou pra minha casa. Tá vendo? Não, eu não ia. Eu decidi ir agora. Por quê? Cê sabe. Eu? É. Você sabe. Você vai fazer o quê? Não sei. Cê vai mesmo pra sua casa? Vou. E você? Vai fazer o quê? Já falei que eu não sei. Descansar um pouco, sei lá. Tudo bem. Alô? Alô. Já chegou na sua casa? Já. Então, as meninas me convidaram pra ver um filme do festival. Que meninas? Ah, as meninas. Que filme? Ah, não sei. Elas falaram o nome, mas eu esqueci. Parece que é sobre a Intrépida Trupe. Entendi. Cê sabe o horário? Acho que é às sete. Não dá tempo pra você, né? É? É. Não fica corrido pra você? Não ficaria, mas eu não tô muito afim. É, eu imaginei. Imaginou? Sim. Entendi. Bom filme. Alô? Alô. Você já tá no cinema? Não, tô no táxi. Ah, sim. Confirmou o nome do filme? É o da Intrépida mesmo. Às sete? É. Não tem essa sessão no guia. Ah, deve ser sete e meia, então. É que na verdade não tem sessão desse filme hoje. Sério? Acho que elas se confundiram, então. Tem certeza que foram elas? Sim. Por que é que você tá falando assim comigo? Nada. Bom filme. Alô? Alô. Tá em casa? Sim. E você? Acabei de sair do cinema. E o filme? Gostei. Só isso? É, gostei. E qual era? Ah, era um outro documentário. Não era mesmo o da Intrépida Trupe. E qual era? Um documentário sobre a África. Qual o nome? Ah, não me lembro direito. Você viu o filme e não se lembra do nome? É. É que era da produtora onde as meninas trabalham. Eu só vi por causa disso. Entendi. Cê não tem mais nada pra me contar? Acho que não, eu não gostei muito do filme, só isso. Cê sabe o nome do diretor? Sei, o diretor é o Alê. E por que você não me contou? O quê? Que você ia ver o filme do seu ex-namorado. Porque eu não sabia. Não? Não. Você já acordou sabendo. Não. Sim. Você me tratou mal o dia todo por causa disso. Por que é que você não me contou? Por que é que você não me convidou? Por que é que você mentiu pra mim? Você tá fazendo tempestade em copo d'água. Eu sabia que você ia ver esse filme. E eu fiquei esperando você falar sobre isso. Mas você não falou. E eu tive que te encher de perguntas pra ouvir isso da sua boca depois de você ter visto, depois de você não ter me convidado, depois de você ter mentido pra mim, depois de esmurrar a parede até minha mão sangrar. Por que é que você mentiu pra mim? Não sei. Eu pensei que. E agora que a mentira entrou, pra onde é que a gente vai?